Escutatória




Por Engenheiro José Antonio Uba

  

Há algum tempo venho pensando em escrever algo sobre esse assunto, pois penso que é um dos principais fatores do comportamento humano que levam uma pessoa a manter boas relações com as demais pessoas e que, muitas das vezes, surte o efeito contrário – ou seja, surgem atritos entre as pessoas porque elas não foram ouvidas e compreendidas. Na verdade, comecei a pensar nisso quando li um artigo do escritor mineiro Rubem Alves, em que ele dizia que sempre vê anúncios de cursos de oratória, mas nunca viu de cursos de escutatória. Mas por que todo mundo quer aprender a falar e ninguém quer aprender a ouvir?
Simples! Aprender a ouvir é muito mais difícil e complicado, pois a pessoa tem que ter pleno controle sobre si e sua mente, além do fato de que, quando uma pessoa fala, ela coloca para fora suas idéias, pensamentos, emoções e outros atributos psicológicos, que aliviam sua mente e fazem bem ao ego, pois, naquele momento, ela é o centro das atenções – bem ao contrário de quando ela simplesmente ouve, momento em que ela internaliza o que está ouvindo e que pode mexer com sua mente.
Vocês devem convir comigo que não é fácil ouvir sem falar nada, sem emitir alguma opinião e, em muitas vezes, sem dar a última palavra (tem gente, aliás, que é mestre nesse assunto). Nossa incapacidade de simplesmente ouvir é muito grande, mostra o quanto somos arrogantes e desrespeitosos com os outros, pois sempre que uma pessoa fala, ela espera que, no mínimo, ouçamos e prestemos atenção em sua mensagem. É lógico que nossa capacidade de ouvir depende de diversos fatores, como o assunto abordado na mensagem, quem são os interlocutores, a forma como a fala é expressada (tom de voz, vocabulário, etc.), o ambiente e a situação do momento, o grau de interesse e boa vontade de quem ouve e outros fatores mais. De qualquer forma, devemos tomar como lição as palavras de Napoleão Bonaparte, que disse: “Sabei escutar e podeis ter a certeza de que o silêncio produz, muitas vezes, o mesmo efeito que a ciência”.
Há uma história indígena que nos conta que em uma reunião do “conselho da tribo”, todos ficam em silêncio e só fala um por vez. Após o pronunciamento de cada um, há sempre um momento de silêncio, para que todos internalizem e reflitam sobre o que foi falado. Com isso, eles demonstram respeito ao pensamento da pessoa que acabou de falar.
É lógico que em nosso dia a dia seria praticamente impossível manter um diálogo dessa maneira, mas vale para refletirmos e pensarmos no quanto de atenção estamos dando ao que as outras pessoas falam.
Johann Goethe disse certa vez: “Falar é uma necessidade, escutar é uma arte”. E, como arte, ela é uma habilidade que deve ser desenvolvida pelas pessoas. Para que possamos desenvolvê-la, precisamos controlar nossa habilidade de falar – para sermos bons ouvintes, precisamos, primeiramente, prestar atenção nas palavras que a outra pessoa está falando e decodificar o conteúdo da mensagem que ela está transmitindo. Depois, é preciso entender o seu real significado e só então, se necessário, expressar nossa opinião ou responder a algum questionamento.
Diversas são as atitudes que devemos ter para escutar bem, mas a principal delas é colocar-se no lugar da outra pessoa, percebendo o que ela está procurando transmitir e sentir o que ela sentirá se não prestarmos atenção ao que ela está falando.
Como diz Paulo Coelho, :“Ficar em silêncio não significa não falar, mas abrir os ouvidos para escutar tudo que está a nossa volta”.
E aí, caro leitor, como você escuta os outros? Será que você precisa participar de um curso de escutatória?

Pense nisso!

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