A ordem dentro do caos


     Em uma conversa num grupo de pessoas, percebi que algumas ficaram pensativas quando falei que a maioria  vivia na corrida dos ratos, por isto não chegava a lugar algum. 
     É mais ou menos assim: primeiro buscam encontrar algum alimento, que não é seu, para saciar a fome. Quando encontram, ficam tão fascinadas, que lutam entre si, acreditando que aquele é o único que existe. Com medo da concorrência, unem-se para evitar a entrada de outros. E ficam ali...debatendo, tramando, simulando ataques e defesas, com medo de perder o que conseguiram. Até que ficam cegos pelo medo da invasão e deixam de ver o mundo lá de fora como ele realmente é, ou seja, uma sequência de oportunidades e desafios.
     Quando o alimento termina e são abandonados à própria sorte, acabam morrendo de inanição, pois perderam as forças, as amizades, e a visão privilegiada do todo, lá de fora.
     E assim muitas pessoas passam a vida, lutando por coisas muito pequenas e egoístas, acreditando que o pouco que lhes é dado, é desejado por todos à sua volta. Quando acordam, ou são bruscamente acordados pelo destino, percebem que não passam de um mínimo grão de arreia, imersos em um mundo que agora lhes é tempestuoso e  repelente.
     Muitas vezes ingenuamente, outras nem tanto assim, estas pessoas acabam destruindo o mundo à sua volta, e quando percebem isto, podem não possuir mais forças para mudar seu destino. 
     Pensando nisso, repasso a seguir um história que recebi, adaptei, e vejo como pertinente para o momento delicado pelo qual passa  nossa sociedade... "Em uma época de muita turbulência social, que se situava entre o início e o complemento, um rei, triste com a incapacidade das pessoas em reagir às más influências que vinham recebendo,  ofereceu um grande prêmio ao artista que fosse capaz de captar em uma única tela a “Paz Perfeita”.
     Foram muitos os que tentaram. O rei observou e admirou todas elas, mas houveram apenas duas que o deixaram  impressionado.  
     A primeira era um lago muito tranquilo, como se fosse um espelho, imagem perfeita onde se refletiam as plácidas montanhas que o rodeavam. Sobre elas encontrava-se um céu muito azul com tênues nuvens brancas. Todos  que olhavam  para essa pintura  nela viam refletida uma paz muito grande. 
     A segunda pintura também tinha montanhas. Ao contrário da outra, lá se configuravam montanhas escabrosas, totalmente despidas de vegetação. Sobre elas havia um céu tempestuoso, do qual  se precipitavam horrendos raios, faíscas e vendavais. Pela montanha abaixo, descia  sob a forma de cascata, uma turbulenta torrente de água avermelhada. Tudo isto se revelava nada pacífico. Mas observando mais atentamente, atrás da cascata  havia  um arbusto surgindo através de  uma fenda na rocha. Nesse arbusto, encontrava-se um ninho.  E ali, em meio aos ruídos e as lastimáveis cenas, estava um passarinho tranquilamente  sentado em seu ninho, cantando alegremente. Esta segunda figura foi a escolhida.
     Todos ficaram espantados com a decisão, pedindo explicações para o rei, que justificou: - Embora muitos  pensem assim, paz não significa estar em um lugar  isolado, sem ruídos ou problemas, sem trabalho ou sem lamentações. Paz significa  que, apesar de estar no meio de tudo isto, permanecemos calmos em nosso coração e em nossa fé. Significa ver o mundo como um todo, e não apenas pelo buraco da fechadura.
     O rei então, chamou até sua presença o homem que havia feito aquilo e disse: - Há centenas de anos, existiam entre nós, um grupo seleto de homens que defendiam uma causa muito nobre, - a “Paz Perfeita” . Devido ao desinteresse da população, que cega por si mesma, passara a cultuar os deuses do egoísmo e da cobiça, estes homens  recolheram-se a lugares secretos ou tornaram-se silenciosos até que a hora determinada fosse chegada.
     Pegando a mão do artista  e colocando-a junto a sua, deixou aparecer dois belos e iguais anéis de ouro, e gritou:    - É chegada a hora,  já estão entre nós aqueles que vieram nos ajudar a mudar e transformar o mundo. As trevas e os que se posicionam a serviço do mal estão com seus dias contados,  A Ordem Dos Cavaleiros Iluminados Da Paz, voltou para cumprir sua missão.
     Logo, como sob um passe de mágica,  um exército de homens  belamente vestidos tomou conta do lugar, o brilho de seus anéis  ofuscaram a visão de muita gente.
     Foram dias de batalhas silenciosas, somente percebidas pelos que tinham a missão de defender suas posições de ambos os lados. Aos demais, apenas os efeitos que tudo isto causava, lhes foi permitido serem sentidos, intencionalmente  justificados por coisas que lhes eram conhecidas e fáceis de assimilar. Cada qual conforme seu conhecimento. Passado um não curto espaço de tempo,  finalmente ...A paz tomou conta de todos os lugares".      
     Um abraço do Klaue.

Por Eduardo Klaue

eduardo.klaue@hermeticus.com.br

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