Saber oculto


Por Eduardo Klaue
eduardo.klaue@hermeticus.com.br



Devido a alguns e-mails que tenho recebido com perguntas e questionamentos sobre uma série de obras literárias em que tendências ao secreto se apresentam, vou fazer um breve comentário: realmente algumas obras são escritas com uma habilidade incrível, gostosas de ler, interessantes desde a primeira até a última linha, com detalhes que levam o leitor a criar as imagens dos fatos na própria mente, muitas vezes sentindo-se no local da cena. Realmente alguns são romances enigmáticos de primeira grandeza.


Quanto aos possíveis segredos que julgam desvelar, levando os leitores à sensação de estarem sendo conduzidos ao alvorecer dos conhecimentos ocultos, não passam de material apenas especulativo. Posso até concordar que várias vezes alguns autores buscam dar como verdadeiros, fatos que eles próprios desconhecem com profundidade. Vejo com alegria a busca progressiva do conhecimento, mas vejo com preocupação a falsa impressão de se ter conhecimento apenas pela definição que outros façam dele. Existem realmente obras interessantes, mas que não estão à disposição ou a fácil compreensão do grande público.

Lembro do  caso de uma pessoa  que conheci há alguns anos, que certo dia me apareceu com umas cartas de baralho egípcio em conjunto com um livro de adivinhações, intitulando-se conhecedor do passado, do presente e do futuro. Ele havia feito um curso em São Paulo sobre o assunto.

Segundo o mesmo, não tinha erro, era só colocar as cartas conforme o manual, e ler os resultados. Então lhe perguntei: - Ler e interpretar são a mesma coisa, uma vez que cada situação abre uma série de oportunidades de interpretações diferentes e contraditórias, onde os caminhos que se cruzam e se completam podem dar um desfecho diferente a cada tempo ou  situação que o antecede? Ele ficou meio na dúvida e me disse que sua intuição o levava a interpretar cada carta que tirava do baralho.

Pedi então que me mostrasse as cartas, dissesse o que cada símbolo que ali existia representava na história daquela civilização e no que poderia contribuir para a interpretação real de cada situação e combinações que se apresentassem. Percebi que ele ficou meio contrariado com minha posição, mas teve que reconhecer que as informações que aquele livro lhe oferecia eram na verdade uma gota no mar de um conhecimento oculto que ainda precisava obter. 

  Outro dia, um jovem bateu palmas no portão de minha casa, e antes que eu pudesse falar alguma coisa, ele com a Bíblia na mão, passou a ler e comentar com autoridade um trecho que dizia, que era mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no céu. Posso dizer que fiquei impressionado com a convicção daquele rapaz, e o convidei para entrar. Deixei então que falasse um pouco mais, e logo percebi que tanto o texto quanto a interpretação não eram escolhas suas, mas sim de quem o enviou.

Vi naquele jovem uma pessoa totalmente despreparada acreditando realmente ter conhecimento sobre o que falava, mas na realidade não passava de um mero repassador de conclusões que não eram suas. Na despedida, pedi a ele que não se colocasse como dono da verdade, e que fosse mais flexível quando de suas visitas e leituras, pois apresentava uma aparência de “papagaio falante” que lhe tirava boa parte da credibilidade. Solicitei que procurasse na Bíblia esta passagem: “Eis por que lhe falo em parábolas: para que vendo não vejam, e ouvindo não ouçam nem compreendam. E neles se cumpra a profecia  de Isaías  que diz: ouvireis com os ouvidos e não entendereis, olheis com os olhos e não vereis porque o coração deste povo se endureceu: e com os ouvidos ouviram mal, e fecharam os olho, para não suceder que vejam com os olhos, ouçam com os ouvidos, entendam com o coração e se convertam e assim eu os cure”.

  Meus amigos, não existem conhecimentos que fiquem ocultos para àqueles que estão preparados para captá-los, como não existem revelações a serem repassadas para aqueles que não podem percebê-las e preservá-las. Cada coisa há sua hora, uma parte do todo não é o todo, a sombra não reflete a imagem e entre o princípio e o fim existe o infinito. Os conhecedores dos segredos dos dias e das noites ainda não se revelaram.             

   As transformações são lentas entre o caos e a ordem. É preciso que se saiba que nenhum conhecimento extraordinário pode ser dividido por muitos. O que é oculto só pode ser verdadeiramente conhecido e utilizado por poucos preparados, em quantidades que se pode contar apenas nos dedos das mãos. Para os demais apenas  o pulsar das revelações pode ser sentido, e que cada um conforme seu merecimento avance.
 
Um abraço do Klaue 

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